A Certeza do Acaso

de

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É mais fácil cruzar o mundo do que esquecer um grande amor.

Uma história de amor atual e envolvente na qual o desejo e o sonho se debatem com o medo e a realidade. 


Livro Autografado PORTES: GRÁTIS DISPONIBILIDADE: Em Stock DESCONTO IMEDIATO DE 20% * DESCONTO VÁLIDO DE 27/11/2020 ATÉ 14/12/2020 Sobre preços e promoções consulte as nossas Condições Gerais de Venda.
ISBN: 9789897245541 Edição ou reimpressão: Novembro de 2020 Páginas: 304 Dimensões: 23.50 x 15.50 x 2.00 cm Peso: 421 Categoria: Temática:

Na luminosa Lisboa, ensombrada pelos tempos de pandemia, Maria da Luz tenta encontrar novos caminhos que lhe resgatem a felicidade perdida, depois de aceitar o fim de uma grande paixão. 

O triste destino de um navio arrestado no Mar da Palha que mantém a sua tripulação refém durante vários meses serve de metáfora para o sonho e a ilusão de que são feitas algumas relações de amor. 

Com os dois filhos já adultos e o pai doente, Maria da Luz procura refúgio e consolo na companhia dos melhores amigos para suavizar a tristeza e a solidão, acentuadas pela sensação do ninho vazio, até perceber que todas as respostas estão dentro de cada um de nós.

Um romance sério e maduro que reflete o limbo e a incerteza do mundo atual, alertando para o perigo das relações impossíveis que deixam vidas encalhadas e corações em estado de sítio. Todos precisamos de sonhar para viver, mas às vezes é preciso mudar de sonhos.


Primeiras Páginas

#últimodia

Então a chuva começou a cair de madrugada, primeiro miudinha e depois mais forte, gotas pesadas e frias inundaram as ruas da cidade, os passeios, os jardins, as soleiras das portas e os vidros dos carros. Abri a janela e respirei o ar molhado, abri os braços e abracei o céu sem cor. 
Fiquei ali um bocado sem me mexer, respirando suavemente, cada vez mais devagar, deixando que o ar fresco entrasse nos pulmões, cada vez mais ar, cada vez mais profundamente. 
A chuva lava o mundo, leva tudo o que já não faz falta. 
Senti que estava finalmente livre. Já tentara o caminho da liberdade muitas vezes, sabia que esta seria a última tentativa. Desta vez não ia voltar atrás, arrepender-me, chorar, ficar presa na rebentação, morrer na praia. Já lhe ganhara. A ele, mas sobretudo a mim.
As maiores vitórias saboreiam-se em silêncio. As maiores vitórias são aquelas em que ganhamos a nós próprios.

Agora, bastava-me continuar a respirar e seguir em frente.

#dia2130
Homem ao mar

O acaso é aquilo que acontece quando Deus não quer assinar por baixo. 
Chamamos acaso a tudo o que não controlamos e também àquilo que, podendo controlar, não possuímos a convicção ou a motivação necessária para o fazer. Ou quando as circunstâncias nos ultrapassam, uma notícia inesperada corta o quotidiano ao meio com um acontecimento extraordinário. Por exemplo, alguém parte de repente, como o meu amigo Paulo, um músico famoso e consagrado, aparentemente feliz, que trocou a vida pela morte por escolha própria. Foi numa manhã de sábado que decidiu fazê-lo, provocando uma onda de estupefação de norte a sul do país, dado o seu elevado grau de popularidade, certamente muito superior àquele que alguma vez terá imaginado, mas a vida é mesmo assim, somos quase sempre muito mais importantes na vida dos outros do que imaginamos. 
Era um homem bonito, inteligente, talentoso, autor de êxitos inesquecíveis que marcaram a minha adolescência e os tempos de faculdade. É verdade que na última década produziu menos de meia dúzia de músicas que não alcançaram, nem de perto nem sequer de longe, o sucesso da sua juventude. Escolheu deixar esta vida — ou apenas a vida, para aqueles que não são crentes nem alimentam o espírito de veleidades místicas e que, portanto, não equacionam a existência de outras dimensões para lá da terrena, na qual nos movimentamos convencidos de viver num estado de consciência plena — na véspera de completar 50 anos. Escreveu uma carta de despedida à mulher e aos quatro filhos, dois do primeiro casamento com uma empresária de sucesso e dois da Mariana, uma 
apresentadora com cara de princesa da Disney que nunca gostou dos holofotes e que se retirou do mundo da televisão assim que pôde. 

Passava meses sem o ver. De vez em quando, o acaso juntava-nos e combinávamos um almoço, um copo ao final da tarde, uma ida ao teatro. Todas as primaveras, durante cerca de 15 anos, ia ao seu almoço de aniversário numa marisqueira em Algés, onde encontrava velhos amigos, velhos conhecidos e também velhos desconhecidos, que são aquelas pessoas com quem nos cruzamos ao 
longo de toda a vida sem nunca fixarmos a cara, o nome e a profissão. 
Este ano, por causa da pandemia que veio mudar o mundo e atrasá-lo para sempre, o Paulo não organizou o clássico almoço. Durante a semana que antecedeu a data, senti-me dividida entre a vontade de ir, caso o Paulo quisesse organizar esse outro programa mais restrito, e o terror de me cruzar com o Miguel. 

Foi num desses almoços que o conheci. O meu pai caíra em casa nessa madrugada e fora levado para o hospital, fratura no colo do fémur, a família em alvoroço, a minha mãe, sempre tão calma e serena, com os dedos enrolados uns nos outros como uma bola de tricot desarrumada, numa manhã que durou muitas horas. Já tinha desistido quando, depois da uma da tarde, recebi uma mensagem do Paulo a dizer, então, miúda, sempre vens? Olha que isto sem ti não tem a mesma piada. A Mariana nunca ia, sempre foi muito reservada. O Paulo, como todos os galãs, mesmo os reformados, tinha mais amigos do que amigas, estes almoços eram uma tradição e as tradições servem para ser respeitadas. Respirei fundo, perguntei à minha irmã se não se importava de ficar com a minha mãe no hospital, e fui.